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O mito da exploração capitalista

É curioso como ideias falaciosas perduram tanto no tempo. Uma das ideias mais nefastas e perigosas que culminou no século XIX e se arrasta até hoje foi aquela extrapolada por Marx de uma definição inexacta de Adam Smith e de um postulado de David Ricardo. A tese serve de base ao trabalho de muitos sindicatos (CTGP-IN) e partidos políticos (PCP). É a teoria da exploração capitalista, que pode ser decomposta numa análise errónea do conceito de mais-valia e de valor intrínseco.

E ela de tempos a tempos volta à tona. António Paço, do 5dias, escreveu:

“[...] para saber que rendas e lucros são resultado de mais-valias (de trabalho não pago) nem era preciso ler Marx. Podia ficar-se pelo Adam Smith ou pelo David Ricardo. Ou o senhor conhece alguma outra explicação plausível para a multiplicação do valor que não seja através do trabalho?”

Muito resumidamente, porque a trama é um pouco mais complexa, a teoria da exploração capitalista parte da seguinte dedução de Marx.

Suponhamos que um operário necessita de trabalhar 6 horas para se sustentar. O capitalista vai então fazer com que ele trabalhe 12, sendo o excedente ou “mais-valia” do trabalho para sustento (as 6 horas), o lucro. Seria, portanto, apropriação do trabalho pelo capitalista. Mais. O capitalista tudo fará para reduzir o número de horas necessárias para que o trabalhador se sustente (substituindo trigo por arroz, mais barato) e para aumentar o número de horas de trabalho (de 12 para 14 horas, por exemplo).

Todo este raciocínio é dedutivamente válido na framework lógica de Marx, mas falso pois assenta em premissas que estão erradas. Nomeadamente, a teoria do valor do trabalho. Como diria o outro, com os pressupostos certos transformo uma galinha numa águia.

Teoria do Valor do Trabalho

Marx leu Adam Smith e David Ricardo. E isso é óbvio na incorporação da teoria do valor do trabalho nos seus postulados e da consequente derivação da teoria da exploração capitalista. A teoria do valor do trabalho postula que o valor de um objeto é dado pela quantidade de trabalho necessário para a sua elaboração.

É pena que o trabalho dos escolásticos de Salamanca ainda não tivesse chegado a Ricardo, filho de pais portugueses, ou este simplesmente ignorou-o (há ainda a terceira hipótese de não existir ainda tradução para inglês, o que é dúbio dado que o trabalho surgiu 200 anos antes de Ricardo). Caso contrário, ele saberia que o valor de um objeto não é dado pelo trabalho que lhe está inerente, mas sim ao cruzamento da oferta e da procura, isto é, do preço que uma pessoa está disposta a receber para perder o objeto e do preço que a outra está disposta a pagar para o obter, que é uma análise subjectiva.

Supply-and-demand.svg

Smith, que diferencia valor de uso (use value ou utilidade) e valor de troca (exchange value), percebe-o:

The real price of every thing, what every thing really costs to the man who wants to acquire it, is the toil and trouble of acquiring it. What every thing is really worth to the man who has acquired it, and who wants to dispose of it or exchange it for something else, is the toil and trouble which it can save to himself, and which it can impose upon other people. (Wealth of Nations, cap. V)

É por isso que uma tarte de lama, por muito trabalho que lhe seja inerente, vale zero para a vasta maioria (excepto para os marxistas, naturalmente). Porque ninguém quer uma tarte de lama. Isso explica também porquê que, por exemplo, uma relógio que custe 100, para mim possa valer 1000 se tiver sido oferecido por alguém especial. É a minha vontade de o ter (juntamente com a de outra pessoa de o obter) que determina o seu preço. E Adam Smith, ao contrário de Ricardo, percebia isto: ele próprio dá o exemplo da água que tem um enorme valor de uso (utilidade) mas que vale menos do que os diamantes. A teoria do valor do trabalho não explicava também o fenómeno, porque num passeio alguém poderia encontrar um diamante e este, embora tivesse requerido trabalho zero a ser encontrado, iria ter um enorme valor de troca (onde Smith incorpora o valor do trabalho).

No entanto, Adam Smith dá origem a uma enorme falácia ao afirmar que “Labour, therefore, is the real measure of the exchangeable value of all commodities”. Presumo que tenha sido este pequeno lapso que confundiu não apenas Marx mas muitos estudiosos que se seguiram. No entanto, Albert Whitaker esclarece que [1]

“[Smith] disowns what is naturally thought of as the genuine classical labor theory of value, that labor-cost regulates market-value. This theory was Ricardo’s, and really his alone.” 

Ou seja, a extrapolação da teoria diz respeito somente a Ricardo, e é nesta que Marx se inquina.

Para Marx, o valor intrínseco de um bem, definido de forma absoluta, é sempre uma medida igual ou proporcional ao valor do trabalho. Logo, segundo a teoria de Marx, a diferença entre os 100 que o relógio custa e os 1000 que eu aceito para o vender (admitindo que alguém o compraria), 900, seria uma renda ou lucro, ergo, exploração dos trabalhadores (não sei bem quais — presume-se que os que construíram o relógio) pelo capitalista (eu)! Se isto parece ridículo é porque efectivamente o é.

Outro exemplo perceptível que falsifica a teoria de Marx é o preço de metais preciosos. Vamos considerar que ouro e prata custam aproximadamente o mesmo trabalho a extrair, contudo o ouro é mais valioso que a prata pela sua utilidade (ou valor de uso). Esta é clara e objetivamente uma negação da teoria do valor de trabalho de Marx (e de Ricardo).

A Expropriação Capitalista dos Meios de Produção

A outra grande tese de Marx é a de que, sendo verdade que todo o valor surge do trabalho, então também o capital (máquinas, equipamentos, terrenos, fábricas) é um produto do trabalho, pelo que se os meios de produção pertencerem aos trabalhadores não há necessidade de serem extraídas rendas, juros ou mais valias do seu trabalho. Daí que o capitalista se queira apropriar dos meios de produção. Algo muito semelhante a esta tese foi proferido por Raquel Varela no Prós e Contras.

Uma vez mais, uma magnânima distorção do verdadeiro processo produtivo.

Em primeiro lugar, para que o capital seja acumulado é necessário que o empreendedor poupe. Consumindo menos, trabalhando mais. Segundo, e dado que o preço do bem não é dado pelo valor do trabalho (este simplesmente o minora) mas sim pelo cruzamento da oferta e da procura, é o empreendedor que tem o ónus de descobrir e desenvolver algo que os outros queiram (Lei de Say: a oferta cria e possibilita a procura). É o empreendedor que tem de adquirir os meios de produção e ainda correr o risco de abdicar do seu consumo. É ainda o empreendedor que, não conseguindo vender o produto, assume a variação negativa dos fluxos, e não os trabalhadores que recebem um salário fixo e não correm riscos de flutuações.

Logo, é o empreendedor que cria a possibilidade de trabalho e, por sua vez, o salário. E o empreendedor estará interessado em pagar na exacta proporção da produtividade que o último trabalhador acresce à empresa.

No final do dia, de pouco ou nada servirá este artigo. Os marxistas continuarão a pregar os seus dogmas e fé, impermeáveis a qualquer avanço científico na área económica. E os cursos de ciências sociais e história continuarão a ensinar as falaciosas e perigosas ideias de mais-valia e de valor intrínseco, que eles próprios não compreendem.

Para mais esclarecimentos recomendo as críticas de Ludwig von MisesCarl Menger e Böhm-Bawerk ou mesmo a lei da oferta e da procura de MarshallEste artigo do Instituto von Mises Brasil é também esclarecedor. Já agora, embora Adam Smith percebesse que era um encontro de vontades que determinava o preço, foram os marginalistas que explicaram que o valor de equilíbrio de mercado é dado pela última das transações, e é essa a definição comum aceite.

[1] - Whitaker, Albert C. History and Criticism of the Labor Theory of Value, pp. 15-16

14 comentários a “O mito da exploração capitalista

  1. Nuno Cardoso da Silva

    A teoria do valor do trabalho é obviamente um total disparate, e a Raquel Varela (como muitos outros) só a papagueia porque não sabe nada de economia e não tem o menor pudor em constantemente patentear em público a sua ignorância.

    O que é interessante em Marx é o conceito da luta de classes e a impossibilidade de conciliar o interesse do trabalho e do capital. Ambos podem estar interessados em que a empresa funcione, mas cada um quer maximizar o seu lucro à custa do outro. A única solução para esse problema – que não é a solução marxiana – é a transformação da empresa capitalista em empresa cooperativa, em que os trabalhadores são ao mesmo tempo os capitalistas. Coisa que podia ter sido geralmente fantasiosa no século XIX mas é perfeitamente viável nos nossos dias.

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    1. mflopes Autor do artigo

      De nada, Gonçalo! Acho que é importante limpar o debate político e económico deste tipo de falácias que nada acrescentam, excepto ruído.

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  3. Rodolfo

    Se analisarmos uma sociedade comunista, o valor de um produto é proporcional ao trabalho, pois numa sociedade comunista só se produz um produto – aço. Afinal, Karl Marx tinha razão.

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  4. Zé Maria Gonçalves Pereira

    muitos parabéns pela qualidade dos seus textos e abrangência de temas. gostaria de o ver aprofundar sobre a questão das empresas que remuneram os seus trabalhadores com equity ou shares. pergunto-me se não será esse o caminho para eliminar o tal aparente conflito entre trabalho e capital sem perder o cariz de iniciativa privada?

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  5. Dédé

    ” o valor de um objeto não é dado pelo trabalho que lhe está inerente, mas sim ao cruzamento da oferta e da procura, isto é, do preço que uma pessoa está disposta a receber para perder o objeto e do preço que a outra está disposta a pagar para o obter, que é uma análise subjectiva”
    Portantos um BMW 530 vale mais do que um Opel Corsa, não porque dá mais trabalho a fazer mas porque a BMW tem mais amor aos seus 530 do que a Opel tem aos seus Corsa, é isso não é?

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  6. Comunista

    “Logo, é o empreendedor que cria a possibilidade de trabalho e, por sua vez, o salário. E o empreendedor estará interessado em pagar na exacta proporção da produtividade que o último trabalhador acresce à empresa.”

    É interessante como esta passagem, da segunda parte, contradiz toda a primeira parte. Na primeira parte nós víamos como o valor do produto se concretiza no que o consumidor está disposto a pagar.

    “Caso contrário, ele saberia que o valor de um objeto não é dado pelo trabalho que lhe está inerente, mas sim ao cruzamento da oferta e da procura, isto é, do preço que uma pessoa está disposta a receber para perder o objeto e do preço que a outra está disposta a pagar para o obter, que é uma análise subjectiva.”

    Mas agora vemos que o valor do produto já está no capitalista uma vez que já está estabelecido que o capitalista é o que cria emprego mesmo antes do produto ser vendido – enfim você alegremente coloca um argumento que se devora a si mesmo e ainda presume dar lições.

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