Prometer o apocalipse não é fazer oposição

Texto que Alexandre Homem Cristo, antigo contribuidor para o defunto Cachimbo de Magritte, escreveu no iOnline.

A destruição do Serviço Nacional de Saúde. O fim da escola pública. O desmantelamento do Estado Social. As políticas salazarentas. A eugenia social que visa enriquecer os ricos e empobrecer os pobres. A ideologia do assistencialismo e da caridadezinha. O retorno à escravatura, com a revisão do código laboral. O rasgar da Constituição da República e dos valores democráticos. O perigo do ultraneoliberalismo. A obsessão pela austeridade e pela superausteridade. A defesa dos interesses do grande capital. E o isolamento político do governo.

A enumeração está longe de ser exaustiva. Muitos outros exemplos existem, todos surgindo com frequência no debate público. Todos irrealistas e irresponsáveis. E todos, em conjunto, constituindo o guião retórico a partir do qual a oposição se dirige ao governo e ao país. Engana-se quem achar que se trata meramente de uma questão de estilo. A questão é que, por detrás destes excessos retóricos, não se avista uma alternativa ou uma ideia. O vazio é total e apenas disfarçado por tiradas hiperbólicas para cativar câmaras televisivas – que, de resto, ao difundi-las, alimentam a vacuidade. Assim, o facto é este: para além de vãs promessas da chegada do apocalipse, a oposição não tem nada a dizer ao país. E os problemas que o facto coloca ultrapassam largamente a chamada “intriga política”. O que está em causa é bem mais grave.

Em primeiro, o pouco exigente discurso catastrofista permite à oposição pôr-se à margem dos problemas do país. Ao lidar com conspirações em vez de factos, em nada a oposição força a responsabilização do governo. Ou seja, não cumpre a sua função, que é a de criar compromissos para uma governação que sirva melhor os interesses do país, em geral, e dos seus eleitores, em particular. Por outro lado, fica definitivamente exposta a inconsequência do apelo à queda do governo. Se a eventualidade apavora o PS, que não quer ficar com a responsabilidade de limpar os estragos que provocou, entusiasma comentadores e promove congressos de alternativas que nada produzem. Retórica apocalíptica à parte, que alternativa política existe? Até hoje, apesar de várias superficialidades sobre a união das esquerdas, não houve resposta.

Em segundo, estas tiradas hiperbólicas destroem o debate público. Desde logo, ao incutir sucessivamente o medo nos portugueses (de modo a influenciar o seu julgamento), infantilizam-nos. Depois, envenenam o debate, afastando–o dos factos e da realidade do país, impedindo-o de ser construtivo. Por fim, banalizam a gravidade da situação que o país atravessa. Tal como na história do menino que, de tanto mentir, ninguém nele acreditou quando falou verdade, também os portugueses, após tantos falsos anúncios de gravidade extrema, desvalorizam hoje os reais alertas de urgência. Verdades e mentiras deixaram de se distinguir. É esse o preço a pagar.

Os excessos retóricos não são um inocente recurso para transmitir ideias. O problema não é estilístico, é político. E, por isso, caro leitor, da próxima vez que alguém lhe prometer o apocalipse, lembre-se do seguinte: é esse, como sempre foi, o verdadeiro isolamento político. E, ao contrário do que por todo o lado se escreve, não está no governo. Está na oposição.

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